
O empresário e ex-presidente do Atlético Paranaense, Mário Celso Petraglia, foi entrevistado na última quarta-feira pela
Tribuna do Paraná. A versão editada da entrevista foi publicada na edição do jornal desta quinta-feira. Aqui, a versão na íntegra, sem edição ou cortes.
Como o senhor tem visto as negociações para viabilizar e garantir a Arena da Baixada na Copa de 2014?
A garantia já existe desde 31 de maio de 2009, quando Curitiba foi incluída entre as 12 cidades e o estádio indicado foi a Arena da Baixada. De lá pra cá, o governo do estado, a prefeitura e o Atlético Paranaense não deram desenvolvimento aos trabalhos na velocidade e nos níveis necessários. Quinze meses se passaram da indicaão e estamos mais ou menos na mesma situação. Vi com apreensão em alguns momentos. Muito preocupado, pois poderíamos acabar perdendo a Copa do Mundo. Seria lamentável para a nossa cidade, para o futebol paranaense e particularmente para o próprio Atlético. Agora as fichas estão caindo. Há uma sensibilidade, um entendimento. Informações melhores para todo mundo. Então seria lamentável que um estado como o nosso, uma cidade considerada uma das principais capitais do Brasil ficassem de fora da Copa. Que perdêssemos aquilo que conquistamos. O valor necessário é 20% do que as outras capitais estão gastando. O estádio é o mais próximo das exigências da Fifa. A cidade é a mais preparada. Não teria nenhum sentido. Vejo apreensivamente, mas de forma lenta, gradual, quase se arrastando, que vamos chegar a um final feliz.
Parece que agora as coisas estão um pouco mais definidas. Por que demorou tanto?
Não vejo agora mais definidas. Está do mesmo tamanho que do dia 31 de maio de 2009. As pessoas que estão envolvidas hoje não tinham as informações de análise para dar continuidade e o caminho que está acontecendo já poderia ter acontecido. Já poderíamos estar com o estádio em andamento. Se nós construímos a Arena em 18 meses, sem dinheiro, como é que a conclusão para a Copa do Mundo em 15 meses nós não fizemos nada? Agora começam a ter informações que já tínhamos atrás. Não quero parecer presunçoso, mas ir ao BNDES, ver o envolvimento necessário de um banco, ou de uma outra instituição como viabilizador de todas essas condições, que amarre as pontas do governo, da prefeitura, do Atlético... Os incentivos ficais, as isenções... Tudo isso o clube não tem como fazer e as entidades públicas também não. Porque o empreendimento é privado.
Muita gente não compreende a importância da Copa para o Atlético. As pessoas vêem essa série de exigências da Fifa e o investimento necessário para cumpri-las como um ônus para o clube.
Não concordo. Eu acho que isso é má-vontade, é uma maldade, alguma outra falta emocional de análise. Não vejo objetivamente qualquer ser humano, dentro de suas faculdades mentais normais, ver algum ponto contrário à vinda da Copa do Mundo e à conclusão da Arena Fifa na vida do Atlético Paranaense. Nós idealizamos e construímos o projeto do Atlético em 1997. Já temos problemas sérios. Temos que trocar o telhado, melhorar a iluminação, concluir a outra parte do estádio... Uma série de investimentos que o Atlético terá que fazer. Com a vinda da Copa, o Atlético terá facilidade de transformar a Arena, resolver todos esses problemas e ainda agregar R$ 50, 80 milhões a seu patrimônio de graça. Que será a contribuição do poder público pela vinda da Copa. Felizmente para nós será no Joaquim Américo. Poderia ser no estádio de um rival. Quis a história que fosse na nossa casa, por nós termos nos antecipado. Pensamos isso lá atrás, quando pensamos que a Copa viria em 2000, para ser jogada em 2006. Fomos privilegiado por essa situação. Nós teremos no pós-Copa um nível de arenas, do futebol brasileiro em outra dimensão e o Atlético se beneficiará disso.
O que tem que ficar muito claro é que o Atlético não investirá, não pode, não deve e nunca houve qualquer sentido ou proposta de pagar o preço além daquilo que é justo que ele pague. Ou seja, o valor que ele gastaria para concluir a Arena a sua conveniência e a seu nível de necessidades. O nível de necessidade da Fifa realmente o Atlético não precisa. Mas se o estado e a prefeitura irão construí-lo, porque não tê-lo. Se você tem condição de fazer uma casa quatro estrelas e menor, daí de repente vem alguém que vai usar sua casa por alguns dias e constrói ele cinco estrelas, maior, mais bem acabada e você não vai ceder?
Tem um aspecto importante que é o prejuízo que o clube terá por se ausentar da sua praça de esporte enquanto se constrói a Arena Fifa. Eu acho que nós, com inteligência, com sabedoria, com experiência, envolvendo nossa fanática torcida, que ajudem. O atleticano tem a obrigação de contribuir com um certo período de sacrifício, com a melhoria definitiva e perpétua. Jogando no Couto Pereira, nós teremos condições de ampliar já nosso quadro associativo de 20 mil para cerca de 40 mil. Então, esse prejuízo que estão dizendo pode ser um benefício. Porque o Atlético não terá condições de ter 40 mil sócios tão cedo, sem Copa do Mundo. Então, a gente pode ter no dia seguinte que a Arena for interrompida, jogando no Couto Pereira, tem mais números de lugares para arregimentar mais sócios. Com isso ele vai aumentar suas receitas e não diminuí-las. Claro, temos aí um prejuízo técnico, ao sair da Arena, com sua mística, para jogar fora de casa. Mas o Atlético tem tradição com isso. Sempre jogou em todos os estádios. No Pinheirão, Vila Capanema... O Couto Pereira era nossa casa. Os grandes jogos sempre eram lá. E quando nós desmontamos a velha Baixada por dois anos, para construir a Arena, o Atlético jogou no Pinheirão, na Vila Capanema... Foi campeão paranaense e se manteve na primeira divisão!
O que tem que ficar claro é que será o salto de qualidade de nossa história, a oportunidade da nossa vida, que não podemos jogar na lata do lixo. Agora, o que eu vejo como falta de habilidade da atual direção do clube de não conduzir isso, liderar isso, para que aconteça o mais rápido possível e marque novamente outro salto de qualidade na nossa vida. Nós temos e teremos de estrutura básica para formar jogadores e jogar, de patrimônio, o melhor e mais moderno do Brasil. A Arena é um projeto moderno. O Morumbi, que será revitalizado, é um projeto de 60 anos. O Beira-Rio também. Então o Atlético terá a condição de ter o orgulho de dizer que tem um dos melhores estádios privados do mundo! Vamos perder esse momento?
O mercado brasileiro do futebol deve chegar em 2014 a receitas de R$ 3 bilhões, com crescimento entre 70% e 120% em todas as áreas, como transferências de jogadores, cotas de televisão, exploração das marcas dos clubes. Participar da Copa é uma forma de ter uma fatia maior desse crescimento?
O valor agregado para o futebol paranaense e para nosso Atlético é muito difícil de mensurar. Eu vi e tive oportunidade de estudar uma consultoria contratada pelo Atlético... Um negócio ridículo, primário... Sem nenhuma ofensa a seus proprietários e seus técnicos. Não levaram em conta nenhuma receita e crescimento futuro. Para se ter segurança e condições de uma análise, teríamos que fazer um estudo de viabilidade com projeção no mínimo até 2020. No mínimo dez anos. Ou 15, que é o período do financiamento. Quando chegamos no Atlético, em 1995, as nossas receitas eram de cinco ou seis milhões de reais por ano. Hoje são 50, 60... Cresceram dez vezes em reais. E o real foi uma moeda estável nesses anos todos. Então, sem dúvida nenhuma, os 50, 60 milhões de reais que o Atlético fatura hoje, claro que não crescerá dez vezes, mas no mínimo dobrará. No mínimo! Para ser o mais pessimista dos homens, no mínimo dobra para 100, 120 milhões. Com um investimento que o Atlético vai desembolsar R$ 30 milhões em 15 anos.
Precisamos esclarecer essa história do financiamento. Nós sabíamos que o BNDES não financia clubes. Teremos que ter alguém que tomasse esse financiamento e repassasse ao Atlético. Quando eu disse que tinha que ir no BNDES correndo e pegar o dinheiro, não falei que seria o Atlético. Nem que o Atlético quisesse. De qualquer maneira, o recurso está lá, disponível para pagar em 15 anos, com três de carência. Que alguém tome e repasse para as entidades responsáveis. Tomar o empréstimo é uma coisa. A responsabilidade de pagá-lo é outra. Claro que tem que tomar. Mas o Atlético ficará responsável pela sua parte. Se for R$ 30 milhões, o Atlético pagará R$ 2 milhões em 15 anos, mais juros, da sua parte. E a prefeitura, o estado ou qualquer que seja o responsável garantirá sua parte. Agora, não ter recurso, não buscar o financiamento, não se preocupar em viabilizar... Isso é o que tem me deixado triste. É uma das melhores condições, das mais fáceis soluções, dos mais baratos estádios, na melhor cidade brasileira, estamos perdidos por causa de tostões.
Muita gente diz que o senhor tem um interesse pessoal na vinda da Copa para Curitiba. Tem negócios ligados à Copa aqui ou em outras cidades do Brasil?
É muito amplo. “Negócios ligados à Copa”... Se estima pelos estudos que temos observado que investimentos públicos e privados diretos ou indiretos nesses anos até 2015, que esses valores ultrapassarão mais de R$ 200 bilhões. Como que um empresário como eu, que tenho vários negócios, não terei interesse nos negócios da Copa? Claro. Nunca escondi isso de ninguém. Agora, ter interesse de negócios não quer dizer que os negócios serão escusos, corruptos, não serão vendidos a preços de mercado, com alta qualidade. É só olhar o Atlético Paranaense. Nós fornecemos a cobertura, as cadeiras e várias coisas das nossas empresas a preço de custo. Que negócio é esse? O negócio aqui é de paixão. Eu estou falando dentro do Atlético.
Agora, fora do clube, se vier o metrô amanhã para Curitiba, nossas empresas estão diretamente envolvidas nesses negócios. Seria crime que nós viéssemos a fornecer, se vencêssemos a concorrência? Essa deformação, essa maldade, essa venda podre a que o homem público é muito... Por isso que me afastei. Não quero mais saber de futebol. Mesmo depois de ter feito tudo o que fiz, de construir o que jamais alguém fez, não só para o Atlético Paranaense, para qualquer clube, ainda há almas invejosas, que apodrecerão e arderão no inferno, que apontam que foi interesse pessoal... Um homem que dedicou de 100 a 120 horas por mês a um clube de graça por 14 anos, deixando um patrimônio incalculável, além dos títulos, dizer que é porque teve interesse pessoal! Isso é uma maldade de invejosos e é muito triste conviver com isso. Qualquer um que tenha qualquer tipo de negócio em Curitiba tem interesse na vida da Copa do Mundo. Nem que seja vender pipoca na esquina ou vuvuzela no sinaleiro.
A realização da Copa na Arena foi um dos pontos fundamentais que a chapa que compõe a atual diretoria do Atlético apresentou na eleição do final de 2008. Mas o presidente Marcos Malucelli até pouco tempo atrás vinha tratando o assunto com certo desdém. Como isso interfere na vida política do clube? Que consequência pode ter?
Quem escreveu, idealizou, estabeleceu os princípios, os compromissos e as propostas para essa chapa que hoje eleita está dirigindo o clube fui eu. Obviamente que seguíamos o projeto de desenvolvimento e crescimento do clube, estabelecido em 1995. Eles assinaram e incorporaram a proposta na chapa que inscreveram. Concorreram e venceram com esses compromissos. Só que abandonaram. Porque assim que tomaram o poder, não iriam contra a história maldita do homem, da criatura se voltar contra o criador. Abandonaram todos os princípios, todas as políticas, todas as estratégias tudo o que eles se comprometeram, não estão fazendo. E também a Copa do Mundo. Era um compromisso que eles tinham comigo, que eu conduziria isso até o fim. Eles entenderam por bem nos afastar. Foi uma opção deles. Segue a vida. Do dia 1.º de junho do ano passado pra cá não me envolvi com a Copa. Acredito que só farão da forma que está acontecendo. Goela abaixo. Porque capacidade para eles promoverem ou executarem qualquer coisa, está provado e comprovado que eles não têm a menor condição.
O senhor participou recentemente da fundação da Assocap. Qual o objetivo dessa associação e do senhor ao fazer parte dela?
Eu fui convidado por um grupo de sócios inconformados, principalmente com essa situação da negligência e imperícia e até da má-vontade da atual diretoria em não perder os jogos da Copa. Perderíamos essa oportunidade única na nossa história. Quando teremos outra Copa? Daqui a 50 anos? Quem sabe dai a Arena terá que ser feita outra, novamente. Eu concordei em participar. É um instrumento que existe no mundo inteiro. Hoje, o Atlético Paranaense tem número representativo de sua torcida associada. São mais de 20 mil sócios, com a expectativa de subir para 40 mil ou ate mais, se mudarmos os critérios e a forma de filiação, com outras alternativas e categorias. Ai está o Internacional, que já passou 100 mil sócio. Então, obviamente, que a criação de uma entidade de classe, para representar e ser a voz unida desse grupo, ou parte dele, é necessário e importante. Eu achei por bem participar. Não faço parte da direção da Assocap, mas como sócio, como ex-presidente e como atual conselheiro, entendi por bem fazer parte e trabalhar para que haja essa força para dialogar com a direção do clube visando o que os sócios entendem que seja o melhor.
Sempre se especula sobre uma volta sua ao comando do Atlético. O senhor tem dito que não voltará. É uma posião definitiva?
Definitiva. Jamais serei candidato a qualquer cargo em qualquer clube de futebol ou em qualquer coisa pública. Eu nunca quis ser político. Nunca me envolvi diretamente em política partidária ou cargos públicos. E já fiz muita polícia. Assim como fazia futebol sem me envolver, até que me envolvi. Não me arrependo. Porque não me arrependo de nada do que fiz na minha vida. E acho que cumprimos nosso papel. Tivemos uma felicidade muito grande de contribuir com nosso clube da forma que hoje está ai materializada, reconhecida no Parana, no Brasil e no mundo. Já fiz a minha parte e não pretendo voltar.
O que alguém que se candidate ao cargo de presidente do Atlético, que tenha essa intenção, precisa fazer para ter o apoio do senhor?
Primeiro, vou pensar muitas vezes em apoiar novamente alguém. Eu já não pretendia me envolver, mas daí surgiu aquela chapa espúria, de pessoas despreparadas, e eu achei por bem e entendi que era minha obrigação apoiar essa chapa que foi vitoriosa. É muito difícil. Uma coisa são as promessas, outra é o cumprimento desses compromissos. Mas essa pessoa ou esse grupo, se merecerem nosso apoio, se comprometerem com os programas... E dessa vez teremos que registrar em cartório, com firma reconhecida, com multa contratual, porque de boca chega. Eu não aceito mais. Eu entrei a primeira, não entrarei a segunda, em promessas vãs, de pessoas que não têm palavra, que não cumprem o que prometeram.
Mas basicamente a análise que farei será das condições fundamentais de que pessoas e de que atleticanos que se propõe e se dispõe à conduzir a vida do clube, será a sua capacidade intelectual, sua experiência empresarial, sua visão de mundo do contexto do que é o futebol e do que ele representa. E principalmente que tenha uma visão de grandeza, e não de pequenez, que não encolha o clube como esse grupo está encolhendo, que não entenda, como eles não entendem, que é possível transformar o clube num grande clube. Eles estão acanhados, estão medrosos, não têm condição de sentir, de ver de avaliar a grandeza que o Atlético Paranaense já obteve e que pode ser em pouco tempo. Então essas serão as condições básicas. Se tudo isso for reunido, o que não será fácil, me proponho a apoiar, ajudar nas eleições e até estar disponível a ajudá-los, a transferir minhas experiências e meu conhecimento, meu aprendizado desses anos todos que me dediquei e estudei o futebol.