segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

Revolução em dois meses

Foi apenas a conquista de um turno, a garantia da vaga em mais uma final estadual. Há alguns anos, o triunfo atleticano não seria motivo de muita comemoração na Baixada. Mas o troféu erguido pelo Furacão em Paranavaí, desta vez, deve ter seu espaço na galeria rubro-negra, como marca da transformação que o clube viveu em apenas dois meses.

O Atlético começou o ano com apenas um arremedo de elenco. Boa parte dos jogadores que rebaixaram o clube em 2011 se mandou de volta para seus times. Apenas um plantel reduzido e de qualidade questionável ficou no CT do Caju, mostrando mais uma vez o quanto foi equivocada e pequena a política de contratação de atletas emprestados, quase sempre refugos que equipes paulistas e cariocas cediam com todo prazer e alívio.

As perspectivas para a temporada 2012 eram tenebrosas. Mas a nova gestão rubro-negra soube transformar o panorama de forma quase inacreditável. Primeiro, com uma completa reformulação administrativa. Profissionais de gabarito foram contratados para comandar as áreas estratégicas da gestão, mudando completamente o ambiente marcado pelo amadorismo dos anos anteriores, fator fundamental para a derrocada atleticana em 2011.

Em relação ao time, a primeira mudança que o torcedor pode perceber foi a retomada da política de valorização dos jogadores formados no CT do Caju. Ao invés de buscar medalhões e nomes de impacto, a nova gestão tratou de reabilitar a prata-da-casa. Bruno Furlan, Ricardinho, Marcelo... Onde estavam eles, enquanto a torcida sofria com Nieto, Madson, Cléber Santana, Adaílton, Morro Garcia?

A escolha do treinador que iria comandar a garotada foi de rara felicidade. Juan Ramón Carrasco logo mostrou que está afinado com a política de valorização dos jovens. E ainda armou um time ousado, ofensivo, que faz do ataque a melhor defesa. Uma tacada de mestre, que também tornou o Atlético independente do mercado brasileiro de treinadores, com salários exorbitantes e concepções ultrapassadas.

O elenco fragilizado de apenas dois meses atrás se transformou. É claro que ainda tem deficiências e precisa de reforços. Mas onde antes se via um grande problema, hoje se vê uma imensa perspectiva. Poucas vezes o Atlético teve uma geração tão promissora. Rodolfo, Pablo, Heracles, Deivid, Harrison, Marcelo, Furlan, Ricardinho... Todos com menos de 23 anos, eles formam a nova base do Furacão. Uma base forjada na base.

Apenas dois meses se passaram e há muito para dizer. Martin Ligüera, o único reforço pedido por Carrasco, chegou como se estivesse em casa. O marketing atleticano, abandonado na última gestão, está renascendo. A conquista do primeiro turno estadual veio fora da Baixada, que segue avançando nas obras para a Copa do Mundo...

A taça conquistada no domingo significa muito mais que uma vaga em uma decisão de campeonato estadual. Significa a retomada do crescimento interrompido. A volta do Atlético moderno, inovador, ousado. E a perspectiva de um futuro (por que não?) gigante.

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

Time de primeira

O primeiro desafio da nova administração do Atlético Paranaense foi superado. Com menos de um mês de serviço, a atual diretoria rubro-negra conseguiu reconstruir a estrutura administrativa do clube. E cumpriu uma das promessas feitas por Petraglia durante a campanha: profissionalismo total.

Mesmo na segunda divisão, o time da Baixada agora conta com um time administrativo de primeira. O currículo dos profissionais contratados para gerir as áreas estratégicas do Furacão deixa claro. Dagoberto, Orlandelli, Holzmann e Biazetto. A escalação pode até não ser lembrada pela torcida, mas tem tudo para fazer história.

Dagoberto dos Santos é o homem escolhido para ser o capitão e camisa 10 da equipe. Passagem vitoriosa pelo Santos, experiência como diretor do Clube dos 13 e atuação no Ministério dos Esportes são as credenciais do diretor geral. Conhece o mercado da bola e é conhecido e reconhecido por ele.

Para comandar o departamento de futebol, Sandro Orlandelli também aparece com um histórico de peso. Os contatos profissionais que já teve com grandes clubes do Brasil, Inglaterra, França, Japão, Oriente Médio e América Latina serão um trunfo importante na hora de garimpar talentos para o time atleticano.

As categorias de base estão sob a tutela de Raphael Biazzetto. Um atleticano fanático, proveniente de uma histórica família rubro-negra, mas que não fica devendo nada no aspecto profissional. Era o responsável pelas escolinhas do clube, setor que conseguiu manter incólume ao desmanche administrativo perpetrado pela diretoria anterior.

O último nome anunciado é o mais conhecido pela torcida. A volta de Mauro Holzmann ao departamento de marketing e comunicação é sinal de que o Atlético está levando novamente a sério um setor fundamental. E que foi negligenciado na última gestão, quando o clube ficou por quase dois anos sem um diretor responsável pela área.

Mauro traz de volta a experiência de quem participou de um trabalho pioneiro no futebol do Brasil. Todas as campanhas do Atlético, que transformaram o clube em referência, tiveram sua participação, o que o credenciou a trabalhar na Traffic, a maior empresa de marketing esportivo do país. Diante da inércia que tomou conta da Baixada nos últimos anos, seu retorno é uma tremenda evolução.

Para comandar essa equipe, o Furacão conta com um Petraglia que parece mais motivado do que nunca. Ou tão motivado quanto sempre. Quem convive com o presidente rubro-negro garante: o homem pensa e respira o Atlético 24 horas por dia. E certamente vai impor o mesmo ritmo a seus comandados.

O primeiro passo da nova Era Petraglia foi dado. A administração do Atlético está reconstruída e renovada, mais profissional do que nunca. No papel, com um timaço. Mas o futebol está cheio de exemplos de timaços de papel que naufragaram. Os desafios do Atlético nos próximos três anos são imensos. Do tamanho de suas ambições. E a turma vai precisar de muito trabalho, começando lá de baixo, na segunda divisão.

A missão da torcida é contribuir para que esse time desempenhe todo seu potencial. E possa montar um esquadrão também dentro das quatro linhas.

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

Dez anos depois

Nesta mesma hora, há exatos dez anos, ainda em São Paulo, ainda molhado, ainda não entendia direito o que havia acontecido. Apenas seis anos antes, pouquíssimos ousariam prever aquele momento. Seis anos. No curto espaço entre 1995 e 2001, aqui mesmo em Curitiba, um time de futebol provou que o impossível não existe. Ou, se existe, definitivamente não é atleticano.

Depois daquele apito final, lá em São Caetano do Sul, ninguém mais poderia duvidar do Atlético Paranaense. Não depois do dia 23 de dezembro de 2001. Nos seis anos anteriores, os atleticanos foram agentes e testemunhas da maior transformação já vivida por um clube de futebol em todo o planeta. Os que não acreditavam e riam da "absurda" pretensão teriam que para sempre engolir: o Furacão era o melhor time do país do futebol.

Mas os adversários continuaram duvidando. E o Atlético continuou provando: com trabalho e determinação, nada é impossível. Apenas três anos depois, detalhes impediram que a festa se repetisse. E já no ano seguinte, vejam só, uma alegria maior só foi evitada graças ao jogo sujo dos bastidores da bola. Proibido de jogar diante de sua torcida e mandado 600 quilômetros para longe do Caldeirão. Só assim o Furacão foi impedido de conquistar o Continente. Mais uma vez, estava provado: não é impossível.

Continuaram duvidando. E o Atlético seguiu provando. A melhor estrutura do futebol brasileiro. Vinte mil sócios. Arena lotada em todos os jogos. Copa do Mundo na Baixada. Dezesseis anos seguidos na primeira divisão, mesmo com menos receitas que os “grandes”, mesmo investindo seus recursos na consolidação patrimonial, sem gastar de forma irresponsável. Nada é impossível.

Dez anos depois da maior conquista, em 2011, uma nova prova. Mesmo com a melhor estrutura, mesmo com 20 mil sócios, mesmo com a Arena lotada, o Atlético está de novo na segunda divisão. Com incompetência e amadorismo, nenhuma tragédia é impossível. É a prova dos três últimos anos, estes 2009, 2010 e 2011 que servem de lição para todos os atleticanos.

Nada é impossível. Diante da tragédia, quem acredita no trabalho, na competência e na força da camisa rubro-negra lança um novo objetivo, ainda maior que todos os já conquistados. Que o Atlético pode ser o melhor do Brasil, ninguém mais tem o direito de duvidar. Dez anos depois da estrela dourada, a meta é conquistar o mundo. Agora, novamente sob o comando de quem tem coragem de enfrentar desafios que só os fanáticos atleticanos ousam encarar.

Muitos vão duvidar. Muitos vão rir. Mas não quem tem o sangue forte. Não quem só veste a camisa por amor. O Atlético pode. O primeiro passo é acreditar. Com a participação e apoio de todos os rubro-negros, com certeza o Furacão vai chegar lá. Que os atleticanos não liguem para a zombaria de quem ainda não aprendeu a lição e segue duvidando. Neste Natal, dez anos depois, a esperança renovada é o grande presente.

*Artigo dedicado a Mario Celso Petraglia, que a cada dia nos mostra: somos do tamanho dos sonhos que realizamos.

Trilha sonora

I'd love to change the world - Ten Years After

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Crise no futebol caipira


A edição de hoje da Tribuna do Paraná publica ótima matéria do colega e camarada Felipe Lessa, sobre a situação falimentar do futebol no interior do Paraná.

Contribui com pesquisa para os infográficos sobre clubes e atletas; com a foto-legenda sobre o Valdir, que começou na Platinense, brilhou no Atlético e chegou à seleção, e com uma entrevista com os Professores Luiz Carlos Ribeiro (UFPR) e Miguel Freitas Júnior (UEPG), membros do Núcleo de Estudos Futebol e Sociedade, que aqui publico na íntegra.

Todo esse material está na edição impressa de hoje da Tribuna. Vale a pena passar na banca e conferir.

O futebol do interior do Paraná já viveu épocas de sucesso técnico-esportivo e de popularidade, com títulos, grandes públicos e clássicos. Hoje clubes tradicionais como Londrina, Grêmio Maringá e União Bandeirante estão próximos da insolvência. Por que chegamos a essa situação?

É preciso considerar tanto fatores sócio-históricos quanto administrativos. O primeiro está relacionado ao fato do Paraná ser uma região de ocupação recente. A região norte do estado marcada pelas migrações mineiras, nordestinas e paulistas No sudoeste as migrações sulistas, em especial do Rio Grande do Sul. Esses migrantes trouxeram suas culturas e, entre elas, a de torcer por seu clube de origem. A região da grande Curitiba – incluso Ponta Grossa – vem se modernizando e atraindo uma leva de migrações de regiões diversas, sendo a maioria originária de grandes cidades onde já existem clubes com tradição.

Esse quadro poderia ter se modificado nos últimos anos se os clubes do Paraná tivessem crescido, tanto no campo esportivo quanto no seu patrimonial social e financeiro. O que se tem verificado é o contrário: os clubes, desde os grandes da capital até os pequenos clubes do interior, vêm somando derrotas esportivas e por conseguinte não conseguem agregar novos adeptos. Acresce-se a isso o papel da mídia – em especial da televisão – que desenvolve outro tipo de cultura esportiva, diferente daquele tradicional, e cada vez mais raro, freqüentador de estádios de futebol. A mídia vem produzindo o torcedor virtual que adere aos clubes de maior visibilidade na televisão.

Outro fator é a falta de organização dos administradores. Em geral são pessoas que estão mais preocupadas com os benefícios próprios do que com aquilo que podem contribuir para o clube. Grande parte dos dirigentes são empresários bem sucedidos em seus negócios, mas fracassam no gerenciamento do futebol. Não por inocência mas porque se utilizam da estrutura contábil frágil dos clubes, onde é possível obter bons rendimentos com pequenos riscos de ser considerado culpado. Se essa fragilidade fiscal existe nos grandes clubes onde há maior visibilidade, inclusive por parte da imprensa, imagine clubes pequenos, que não tem tanta visibilidade junto a mídia e que a população idolatra o presidente do clube.

Alguns dos principais desafios dos clubes do interior são criar identificação com a cidade em que estão estabelecidos e conquistar públicos para seus jogos. Por que essa dificuldade?

Porque devido aos problemas anteriores citados, alguns diretores mudam somente a razão social deixando o clube tradicional na lama e criam um novo clube às vezes até dentro da própria cidade. Muitas vezes essa estratégia é para fugir de tributos fiscais ou outros tipos de pendências financeiras. Isto faz com que o torcedor não crie vínculo. A mentalidade gerencial desses dirigentes desses é estritamente comercial: qualquer jogador relativamente bom que apareça dificilmente termina a temporada. Isto não seria problema se esses clubes tivessem um trabalho de base, o que não acontece, gerando duas conseqüências imediatas 1) O torcedor da cidade pequena é próximo e quer ir torcer para o jogador da sua cidade; todos sentem-se orgulhosos em falar que aquele que jogador mora no seu bairro. Mas as equipes são formadas efêmeros – locais ou de fora – que permanecem muito pouco tempo no clube e não nenhum tipo de vínculo com a cidade; 2) Você nunca sabe se o trabalho realizado numa temporada terá sequência na próxima, pois não há peças de reposição.

Qual o caminho para os clubes do interior reconquistarem o espaço perdido? Existe solução?


Eu acredito que sim e temos defendido isto constantemente: é ter um planejamento de média e longa duração buscando um equilíbrio entre a eficácia financeira e a esportiva. Para isso é preciso investir na base, porém de forma séria profissional e científica. As cidades citadas, todas (Ponta Grossa, Londrina e Maringá), possuem cursos de Educação Física, local em que a estrutura física se aproxima dos CTS de ponta no que se refere aos laboratórios de Fisiologia do Esforço, academias, piscina... Mas não há uma ligação entre estes dois campos, pois um acha que tudo pode ser definido a partir da ciência e o outro acha que o futebol no Brasil é improviso e ganhar dinheiro rápido e fácil, não se importando com a formação do atleta, em todos os sentidos. A solução está pautada em valores como - Organização, profissionalismo, planejamento, transparência, investimento na base e efetiva responsabilização fiscal para os administradores do clube.

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

Na íntegra, a entrevista de Petraglia à Tribuna

O empresário e ex-presidente do Atlético Paranaense, Mário Celso Petraglia, foi entrevistado na última quarta-feira pela Tribuna do Paraná. A versão editada da entrevista foi publicada na edição do jornal desta quinta-feira. Aqui, a versão na íntegra, sem edição ou cortes.

Como o senhor tem visto as negociações para viabilizar e garantir a Arena da Baixada na Copa de 2014?

A garantia já existe desde 31 de maio de 2009, quando Curitiba foi incluída entre as 12 cidades e o estádio indicado foi a Arena da Baixada. De lá pra cá, o governo do estado, a prefeitura e o Atlético Paranaense não deram desenvolvimento aos trabalhos na velocidade e nos níveis necessários. Quinze meses se passaram da indicaão e estamos mais ou menos na mesma situação. Vi com apreensão em alguns momentos. Muito preocupado, pois poderíamos acabar perdendo a Copa do Mundo. Seria lamentável para a nossa cidade, para o futebol paranaense e particularmente para o próprio Atlético. Agora as fichas estão caindo. Há uma sensibilidade, um entendimento. Informações melhores para todo mundo. Então seria lamentável que um estado como o nosso, uma cidade considerada uma das principais capitais do Brasil ficassem de fora da Copa. Que perdêssemos aquilo que conquistamos. O valor necessário é 20% do que as outras capitais estão gastando. O estádio é o mais próximo das exigências da Fifa. A cidade é a mais preparada. Não teria nenhum sentido. Vejo apreensivamente, mas de forma lenta, gradual, quase se arrastando, que vamos chegar a um final feliz.

Parece que agora as coisas estão um pouco mais definidas. Por que demorou tanto?

Não vejo agora mais definidas. Está do mesmo tamanho que do dia 31 de maio de 2009. As pessoas que estão envolvidas hoje não tinham as informações de análise para dar continuidade e o caminho que está acontecendo já poderia ter acontecido. Já poderíamos estar com o estádio em andamento. Se nós construímos a Arena em 18 meses, sem dinheiro, como é que a conclusão para a Copa do Mundo em 15 meses nós não fizemos nada? Agora começam a ter informações que já tínhamos atrás. Não quero parecer presunçoso, mas ir ao BNDES, ver o envolvimento necessário de um banco, ou de uma outra instituição como viabilizador de todas essas condições, que amarre as pontas do governo, da prefeitura, do Atlético... Os incentivos ficais, as isenções... Tudo isso o clube não tem como fazer e as entidades públicas também não. Porque o empreendimento é privado.

Muita gente não compreende a importância da Copa para o Atlético. As pessoas vêem essa série de exigências da Fifa e o investimento necessário para cumpri-las como um ônus para o clube.

Não concordo. Eu acho que isso é má-vontade, é uma maldade, alguma outra falta emocional de análise. Não vejo objetivamente qualquer ser humano, dentro de suas faculdades mentais normais, ver algum ponto contrário à vinda da Copa do Mundo e à conclusão da Arena Fifa na vida do Atlético Paranaense. Nós idealizamos e construímos o projeto do Atlético em 1997. Já temos problemas sérios. Temos que trocar o telhado, melhorar a iluminação, concluir a outra parte do estádio... Uma série de investimentos que o Atlético terá que fazer. Com a vinda da Copa, o Atlético terá facilidade de transformar a Arena, resolver todos esses problemas e ainda agregar R$ 50, 80 milhões a seu patrimônio de graça. Que será a contribuição do poder público pela vinda da Copa. Felizmente para nós será no Joaquim Américo. Poderia ser no estádio de um rival. Quis a história que fosse na nossa casa, por nós termos nos antecipado. Pensamos isso lá atrás, quando pensamos que a Copa viria em 2000, para ser jogada em 2006. Fomos privilegiado por essa situação. Nós teremos no pós-Copa um nível de arenas, do futebol brasileiro em outra dimensão e o Atlético se beneficiará disso.

O que tem que ficar muito claro é que o Atlético não investirá, não pode, não deve e nunca houve qualquer sentido ou proposta de pagar o preço além daquilo que é justo que ele pague. Ou seja, o valor que ele gastaria para concluir a Arena a sua conveniência e a seu nível de necessidades. O nível de necessidade da Fifa realmente o Atlético não precisa. Mas se o estado e a prefeitura irão construí-lo, porque não tê-lo. Se você tem condição de fazer uma casa quatro estrelas e menor, daí de repente vem alguém que vai usar sua casa por alguns dias e constrói ele cinco estrelas, maior, mais bem acabada e você não vai ceder?

Tem um aspecto importante que é o prejuízo que o clube terá por se ausentar da sua praça de esporte enquanto se constrói a Arena Fifa. Eu acho que nós, com inteligência, com sabedoria, com experiência, envolvendo nossa fanática torcida, que ajudem. O atleticano tem a obrigação de contribuir com um certo período de sacrifício, com a melhoria definitiva e perpétua. Jogando no Couto Pereira, nós teremos condições de ampliar já nosso quadro associativo de 20 mil para cerca de 40 mil. Então, esse prejuízo que estão dizendo pode ser um benefício. Porque o Atlético não terá condições de ter 40 mil sócios tão cedo, sem Copa do Mundo. Então, a gente pode ter no dia seguinte que a Arena for interrompida, jogando no Couto Pereira, tem mais números de lugares para arregimentar mais sócios. Com isso ele vai aumentar suas receitas e não diminuí-las. Claro, temos aí um prejuízo técnico, ao sair da Arena, com sua mística, para jogar fora de casa. Mas o Atlético tem tradição com isso. Sempre jogou em todos os estádios. No Pinheirão, Vila Capanema... O Couto Pereira era nossa casa. Os grandes jogos sempre eram lá. E quando nós desmontamos a velha Baixada por dois anos, para construir a Arena, o Atlético jogou no Pinheirão, na Vila Capanema... Foi campeão paranaense e se manteve na primeira divisão!
O que tem que ficar claro é que será o salto de qualidade de nossa história, a oportunidade da nossa vida, que não podemos jogar na lata do lixo. Agora, o que eu vejo como falta de habilidade da atual direção do clube de não conduzir isso, liderar isso, para que aconteça o mais rápido possível e marque novamente outro salto de qualidade na nossa vida. Nós temos e teremos de estrutura básica para formar jogadores e jogar, de patrimônio, o melhor e mais moderno do Brasil. A Arena é um projeto moderno. O Morumbi, que será revitalizado, é um projeto de 60 anos. O Beira-Rio também. Então o Atlético terá a condição de ter o orgulho de dizer que tem um dos melhores estádios privados do mundo! Vamos perder esse momento?

O mercado brasileiro do futebol deve chegar em 2014 a receitas de R$ 3 bilhões, com crescimento entre 70% e 120% em todas as áreas, como transferências de jogadores, cotas de televisão, exploração das marcas dos clubes. Participar da Copa é uma forma de ter uma fatia maior desse crescimento?

O valor agregado para o futebol paranaense e para nosso Atlético é muito difícil de mensurar. Eu vi e tive oportunidade de estudar uma consultoria contratada pelo Atlético... Um negócio ridículo, primário... Sem nenhuma ofensa a seus proprietários e seus técnicos. Não levaram em conta nenhuma receita e crescimento futuro. Para se ter segurança e condições de uma análise, teríamos que fazer um estudo de viabilidade com projeção no mínimo até 2020. No mínimo dez anos. Ou 15, que é o período do financiamento. Quando chegamos no Atlético, em 1995, as nossas receitas eram de cinco ou seis milhões de reais por ano. Hoje são 50, 60... Cresceram dez vezes em reais. E o real foi uma moeda estável nesses anos todos. Então, sem dúvida nenhuma, os 50, 60 milhões de reais que o Atlético fatura hoje, claro que não crescerá dez vezes, mas no mínimo dobrará. No mínimo! Para ser o mais pessimista dos homens, no mínimo dobra para 100, 120 milhões. Com um investimento que o Atlético vai desembolsar R$ 30 milhões em 15 anos.

Precisamos esclarecer essa história do financiamento. Nós sabíamos que o BNDES não financia clubes. Teremos que ter alguém que tomasse esse financiamento e repassasse ao Atlético. Quando eu disse que tinha que ir no BNDES correndo e pegar o dinheiro, não falei que seria o Atlético. Nem que o Atlético quisesse. De qualquer maneira, o recurso está lá, disponível para pagar em 15 anos, com três de carência. Que alguém tome e repasse para as entidades responsáveis. Tomar o empréstimo é uma coisa. A responsabilidade de pagá-lo é outra. Claro que tem que tomar. Mas o Atlético ficará responsável pela sua parte. Se for R$ 30 milhões, o Atlético pagará R$ 2 milhões em 15 anos, mais juros, da sua parte. E a prefeitura, o estado ou qualquer que seja o responsável garantirá sua parte. Agora, não ter recurso, não buscar o financiamento, não se preocupar em viabilizar... Isso é o que tem me deixado triste. É uma das melhores condições, das mais fáceis soluções, dos mais baratos estádios, na melhor cidade brasileira, estamos perdidos por causa de tostões.

Muita gente diz que o senhor tem um interesse pessoal na vinda da Copa para Curitiba. Tem negócios ligados à Copa aqui ou em outras cidades do Brasil?

É muito amplo. “Negócios ligados à Copa”... Se estima pelos estudos que temos observado que investimentos públicos e privados diretos ou indiretos nesses anos até 2015, que esses valores ultrapassarão mais de R$ 200 bilhões. Como que um empresário como eu, que tenho vários negócios, não terei interesse nos negócios da Copa? Claro. Nunca escondi isso de ninguém. Agora, ter interesse de negócios não quer dizer que os negócios serão escusos, corruptos, não serão vendidos a preços de mercado, com alta qualidade. É só olhar o Atlético Paranaense. Nós fornecemos a cobertura, as cadeiras e várias coisas das nossas empresas a preço de custo. Que negócio é esse? O negócio aqui é de paixão. Eu estou falando dentro do Atlético.

Agora, fora do clube, se vier o metrô amanhã para Curitiba, nossas empresas estão diretamente envolvidas nesses negócios. Seria crime que nós viéssemos a fornecer, se vencêssemos a concorrência? Essa deformação, essa maldade, essa venda podre a que o homem público é muito... Por isso que me afastei. Não quero mais saber de futebol. Mesmo depois de ter feito tudo o que fiz, de construir o que jamais alguém fez, não só para o Atlético Paranaense, para qualquer clube, ainda há almas invejosas, que apodrecerão e arderão no inferno, que apontam que foi interesse pessoal... Um homem que dedicou de 100 a 120 horas por mês a um clube de graça por 14 anos, deixando um patrimônio incalculável, além dos títulos, dizer que é porque teve interesse pessoal! Isso é uma maldade de invejosos e é muito triste conviver com isso. Qualquer um que tenha qualquer tipo de negócio em Curitiba tem interesse na vida da Copa do Mundo. Nem que seja vender pipoca na esquina ou vuvuzela no sinaleiro.

A realização da Copa na Arena foi um dos pontos fundamentais que a chapa que compõe a atual diretoria do Atlético apresentou na eleição do final de 2008. Mas o presidente Marcos Malucelli até pouco tempo atrás vinha tratando o assunto com certo desdém. Como isso interfere na vida política do clube? Que consequência pode ter?

Quem escreveu, idealizou, estabeleceu os princípios, os compromissos e as propostas para essa chapa que hoje eleita está dirigindo o clube fui eu. Obviamente que seguíamos o projeto de desenvolvimento e crescimento do clube, estabelecido em 1995. Eles assinaram e incorporaram a proposta na chapa que inscreveram. Concorreram e venceram com esses compromissos. Só que abandonaram. Porque assim que tomaram o poder, não iriam contra a história maldita do homem, da criatura se voltar contra o criador. Abandonaram todos os princípios, todas as políticas, todas as estratégias tudo o que eles se comprometeram, não estão fazendo. E também a Copa do Mundo. Era um compromisso que eles tinham comigo, que eu conduziria isso até o fim. Eles entenderam por bem nos afastar. Foi uma opção deles. Segue a vida. Do dia 1.º de junho do ano passado pra cá não me envolvi com a Copa. Acredito que só farão da forma que está acontecendo. Goela abaixo. Porque capacidade para eles promoverem ou executarem qualquer coisa, está provado e comprovado que eles não têm a menor condição.

O senhor participou recentemente da fundação da Assocap. Qual o objetivo dessa associação e do senhor ao fazer parte dela?

Eu fui convidado por um grupo de sócios inconformados, principalmente com essa situação da negligência e imperícia e até da má-vontade da atual diretoria em não perder os jogos da Copa. Perderíamos essa oportunidade única na nossa história. Quando teremos outra Copa? Daqui a 50 anos? Quem sabe dai a Arena terá que ser feita outra, novamente. Eu concordei em participar. É um instrumento que existe no mundo inteiro. Hoje, o Atlético Paranaense tem número representativo de sua torcida associada. São mais de 20 mil sócios, com a expectativa de subir para 40 mil ou ate mais, se mudarmos os critérios e a forma de filiação, com outras alternativas e categorias. Ai está o Internacional, que já passou 100 mil sócio. Então, obviamente, que a criação de uma entidade de classe, para representar e ser a voz unida desse grupo, ou parte dele, é necessário e importante. Eu achei por bem participar. Não faço parte da direção da Assocap, mas como sócio, como ex-presidente e como atual conselheiro, entendi por bem fazer parte e trabalhar para que haja essa força para dialogar com a direção do clube visando o que os sócios entendem que seja o melhor.

Sempre se especula sobre uma volta sua ao comando do Atlético. O senhor tem dito que não voltará. É uma posião definitiva?

Definitiva. Jamais serei candidato a qualquer cargo em qualquer clube de futebol ou em qualquer coisa pública. Eu nunca quis ser político. Nunca me envolvi diretamente em política partidária ou cargos públicos. E já fiz muita polícia. Assim como fazia futebol sem me envolver, até que me envolvi. Não me arrependo. Porque não me arrependo de nada do que fiz na minha vida. E acho que cumprimos nosso papel. Tivemos uma felicidade muito grande de contribuir com nosso clube da forma que hoje está ai materializada, reconhecida no Parana, no Brasil e no mundo. Já fiz a minha parte e não pretendo voltar.

O que alguém que se candidate ao cargo de presidente do Atlético, que tenha essa intenção, precisa fazer para ter o apoio do senhor?

Primeiro, vou pensar muitas vezes em apoiar novamente alguém. Eu já não pretendia me envolver, mas daí surgiu aquela chapa espúria, de pessoas despreparadas, e eu achei por bem e entendi que era minha obrigação apoiar essa chapa que foi vitoriosa. É muito difícil. Uma coisa são as promessas, outra é o cumprimento desses compromissos. Mas essa pessoa ou esse grupo, se merecerem nosso apoio, se comprometerem com os programas... E dessa vez teremos que registrar em cartório, com firma reconhecida, com multa contratual, porque de boca chega. Eu não aceito mais. Eu entrei a primeira, não entrarei a segunda, em promessas vãs, de pessoas que não têm palavra, que não cumprem o que prometeram.

Mas basicamente a análise que farei será das condições fundamentais de que pessoas e de que atleticanos que se propõe e se dispõe à conduzir a vida do clube, será a sua capacidade intelectual, sua experiência empresarial, sua visão de mundo do contexto do que é o futebol e do que ele representa. E principalmente que tenha uma visão de grandeza, e não de pequenez, que não encolha o clube como esse grupo está encolhendo, que não entenda, como eles não entendem, que é possível transformar o clube num grande clube. Eles estão acanhados, estão medrosos, não têm condição de sentir, de ver de avaliar a grandeza que o Atlético Paranaense já obteve e que pode ser em pouco tempo. Então essas serão as condições básicas. Se tudo isso for reunido, o que não será fácil, me proponho a apoiar, ajudar nas eleições e até estar disponível a ajudá-los, a transferir minhas experiências e meu conhecimento, meu aprendizado desses anos todos que me dediquei e estudei o futebol.

terça-feira, 29 de junho de 2010

Vuvuzelas burocráticas

Amigos, coitadas das vuvuzelas. O que não falta é gente a pedir para elas a pena de morte ou mesmo a extinção da espécie. São chatas, é verdade. Mas vos digo que as piores não estão nas arquibancadas africanas. As mais estridentes vuvuzelas estão nas cabines, nos estúdios, nas coletivas e nas zonas mistas dos estádios da Copa.

A crônica esportiva nacional está contaminada pelo “jornalismo reclamão”, vuvuzeleiro por natureza. Está impregnada de lamentação eterna e falsa nostalgia. Sintomas de patologia emocional severa, que se espalha e se agrava com o passar do tempo.

Nos jornais e mesas-redondas, a doença se manifesta em críticas ao futebol “burocrático”, supostamente apresentado pela seleção. Mesmo após a incontestável e insuspeita goleada sobre o Chile, abro o jornal e leio: “Burocrática, mas eficiente”.

A esse futebol “burocrático” se contrapõe o futebol “arte”, um suposto estágio de perfeição coletiva, projetada nos “exemplos” de 58, 70, 82...

Tal futebol “arte” não existe, nunca existiu. Como qualquer conceito de perfeição, não tem paralelo no mundo real. A arte não é perfeita, nem quando executada por gênios como Zico, Garrincha, Pelé, Mozart, Van Gogh ou Buarque. Perfeito, contrário de humano. Antônimo de real.

Os times de 58, 70 e 82 também foram alvos da incredulidade e do derrotismo dos reclamões. Em 1958, o ideal de perfeição era projetado sobre um imaginário futebol europeu, objetivo, eficiente, “científico”. A partir de então, o nosso “espírito de vira-latas” passou a se alimentar da própria seleção brasileira. Não na que realmente jogou na Suécia, mas numa irreal e perfeita seleção dos sonhos, que jamais será igualada.

“Robinho hizo un golazo para decorar una goleada tranquila, que sólo puede explicarse en el talento de una selección que por momentos sobra los partidos. Tratar de analizar esta nueva victoria brasileña desde lo táctico, sería cometer una injusticia con quienes mejor juegan al fútbol”, afirmaram os argentinos do Olé, após a mesma vitória brasileira sobre o Chile. A doença que nos assola ainda não passou a fronteira.

O futebol nunca será 90 minutos de arte. Jamais os melhores momentos irão reprisar a partida completa.O lance do gol de Pelé contra o País de Gales não durou o jogo inteiro. Garrincha não ficou driblando russos do primeiro chute ao apito final. No futebol, a arte está em breves momentos. Em pequenos instantes. E instantes como os vividos por Juan, Maicon, Kaká, Robinho e Luís Fabiano pouco ficam devendo àqueles do Mané, do Galinho ou do Rei.

domingo, 23 de maio de 2010

Ferido de bola

O suor escorrendo pelo rosto mais uma vez. Sempre que passava por ali, seu corpo repetia as mesmas sensações, os mesmos movimentos, a mesma reação. A ansiedade, aquela hedionda ansiedade que ele não mais suportava, era outra vez seu algoz. Às vezes, tinha a impressão de que precisava forçar a memória para recordar por que aquele cheiro, aqueles ruídos, aquele lugar causavam nele tal tormenta.

Doce ilusão. A lembrança daquele trágico instante jamais o abandonaria. Afinal fora ali, naquele momento, que o menino de calças curtas e carretel de pipa no bolso deixou sua infância para trás, largada em meio às cinzas de um quase Carnaval. Desde então, a vida mudara, o mundo mudara... Só aquela gota se suor escorrendo pela cara não mudara.

Naquele dia, ele abandou as ilusões. Deixou para trás a crença em heróis e ídolos. Nada mais era perfeito ou infalível. Nada era verdadeiro, ou justo. Naquele lugar, ele foi apresentado àquilo que chamam de vida real. Sempre que uma ponta de fantasia, uma faísca de utopia, um brilho de esperança lhe surgia, lá vinham as lembranças daquela tarde, como um beliscão de acordar sonâmbulo.

Seguiu a vida, agora “real”. Até mesmo o objetivo que buscavam naquele dia foi depois conquistado. Uma, duas, cinco vezes. Mas ele já não podia se orgulhar ou achar graça daquilo. Era um ser traumatizado, uma alma ferida de morte. Desde o minuto anterior, quando aquela ansiedade lhe veio pela primeira vez. Pior do que qualquer barulho era o silêncio.

Por que, então, não largava o costume de gastar ali, com o suor escorrendo pelo rosto, duas ou três horas, quase toda semana, durante 60 anos? Isso, jamais saberia explicar. Mas mesmo sem saber o motivo, estava ele lá mais uma vez. Em meio aos fogos e à serpentina. Junto à multidão em êxtase, ele ficava sozinho, impávido. No Maracanã. Com o gol de Ghiggia cravado no peito.