Amigos, coitadas das vuvuzelas. O que não falta é gente a pedir para elas a pena de morte ou mesmo a extinção da espécie. São chatas, é verdade. Mas vos digo que as piores não estão nas arquibancadas africanas. As mais estridentes vuvuzelas estão nas cabines, nos estúdios, nas coletivas e nas zonas mistas dos estádios da Copa.
A crônica esportiva nacional está contaminada pelo “jornalismo reclamão”, vuvuzeleiro por natureza. Está impregnada de lamentação eterna e falsa nostalgia. Sintomas de patologia emocional severa, que se espalha e se agrava com o passar do tempo.
Nos jornais e mesas-redondas, a doença se manifesta em críticas ao futebol “burocrático”, supostamente apresentado pela seleção. Mesmo após a incontestável e insuspeita goleada sobre o Chile, abro o jornal e leio: “Burocrática, mas eficiente”.
A esse futebol “burocrático” se contrapõe o futebol “arte”, um suposto estágio de perfeição coletiva, projetada nos “exemplos” de 58, 70, 82...
Tal futebol “arte” não existe, nunca existiu. Como qualquer conceito de perfeição, não tem paralelo no mundo real. A arte não é perfeita, nem quando executada por gênios como Zico, Garrincha, Pelé, Mozart, Van Gogh ou Buarque. Perfeito, contrário de humano. Antônimo de real.
Os times de 58, 70 e 82 também foram alvos da incredulidade e do derrotismo dos reclamões. Em 1958, o ideal de perfeição era projetado sobre um imaginário futebol europeu, objetivo, eficiente, “científico”. A partir de então, o nosso “espírito de vira-latas” passou a se alimentar da própria seleção brasileira. Não na que realmente jogou na Suécia, mas numa irreal e perfeita seleção dos sonhos, que jamais será igualada.
“Robinho hizo un golazo para decorar una goleada tranquila, que sólo puede explicarse en el talento de una selección que por momentos sobra los partidos. Tratar de analizar esta nueva victoria brasileña desde lo táctico, sería cometer una injusticia con quienes mejor juegan al fútbol”, afirmaram os argentinos do Olé, após a mesma vitória brasileira sobre o Chile. A doença que nos assola ainda não passou a fronteira.
O futebol nunca será 90 minutos de arte. Jamais os melhores momentos irão reprisar a partida completa.O lance do gol de Pelé contra o País de Gales não durou o jogo inteiro. Garrincha não ficou driblando russos do primeiro chute ao apito final. No futebol, a arte está em breves momentos. Em pequenos instantes. E instantes como os vividos por Juan, Maicon, Kaká, Robinho e Luís Fabiano pouco ficam devendo àqueles do Mané, do Galinho ou do Rei.