segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Crise no futebol caipira


A edição de hoje da Tribuna do Paraná publica ótima matéria do colega e camarada Felipe Lessa, sobre a situação falimentar do futebol no interior do Paraná.

Contribui com pesquisa para os infográficos sobre clubes e atletas; com a foto-legenda sobre o Valdir, que começou na Platinense, brilhou no Atlético e chegou à seleção, e com uma entrevista com os Professores Luiz Carlos Ribeiro (UFPR) e Miguel Freitas Júnior (UEPG), membros do Núcleo de Estudos Futebol e Sociedade, que aqui publico na íntegra.

Todo esse material está na edição impressa de hoje da Tribuna. Vale a pena passar na banca e conferir.

O futebol do interior do Paraná já viveu épocas de sucesso técnico-esportivo e de popularidade, com títulos, grandes públicos e clássicos. Hoje clubes tradicionais como Londrina, Grêmio Maringá e União Bandeirante estão próximos da insolvência. Por que chegamos a essa situação?

É preciso considerar tanto fatores sócio-históricos quanto administrativos. O primeiro está relacionado ao fato do Paraná ser uma região de ocupação recente. A região norte do estado marcada pelas migrações mineiras, nordestinas e paulistas No sudoeste as migrações sulistas, em especial do Rio Grande do Sul. Esses migrantes trouxeram suas culturas e, entre elas, a de torcer por seu clube de origem. A região da grande Curitiba – incluso Ponta Grossa – vem se modernizando e atraindo uma leva de migrações de regiões diversas, sendo a maioria originária de grandes cidades onde já existem clubes com tradição.

Esse quadro poderia ter se modificado nos últimos anos se os clubes do Paraná tivessem crescido, tanto no campo esportivo quanto no seu patrimonial social e financeiro. O que se tem verificado é o contrário: os clubes, desde os grandes da capital até os pequenos clubes do interior, vêm somando derrotas esportivas e por conseguinte não conseguem agregar novos adeptos. Acresce-se a isso o papel da mídia – em especial da televisão – que desenvolve outro tipo de cultura esportiva, diferente daquele tradicional, e cada vez mais raro, freqüentador de estádios de futebol. A mídia vem produzindo o torcedor virtual que adere aos clubes de maior visibilidade na televisão.

Outro fator é a falta de organização dos administradores. Em geral são pessoas que estão mais preocupadas com os benefícios próprios do que com aquilo que podem contribuir para o clube. Grande parte dos dirigentes são empresários bem sucedidos em seus negócios, mas fracassam no gerenciamento do futebol. Não por inocência mas porque se utilizam da estrutura contábil frágil dos clubes, onde é possível obter bons rendimentos com pequenos riscos de ser considerado culpado. Se essa fragilidade fiscal existe nos grandes clubes onde há maior visibilidade, inclusive por parte da imprensa, imagine clubes pequenos, que não tem tanta visibilidade junto a mídia e que a população idolatra o presidente do clube.

Alguns dos principais desafios dos clubes do interior são criar identificação com a cidade em que estão estabelecidos e conquistar públicos para seus jogos. Por que essa dificuldade?

Porque devido aos problemas anteriores citados, alguns diretores mudam somente a razão social deixando o clube tradicional na lama e criam um novo clube às vezes até dentro da própria cidade. Muitas vezes essa estratégia é para fugir de tributos fiscais ou outros tipos de pendências financeiras. Isto faz com que o torcedor não crie vínculo. A mentalidade gerencial desses dirigentes desses é estritamente comercial: qualquer jogador relativamente bom que apareça dificilmente termina a temporada. Isto não seria problema se esses clubes tivessem um trabalho de base, o que não acontece, gerando duas conseqüências imediatas 1) O torcedor da cidade pequena é próximo e quer ir torcer para o jogador da sua cidade; todos sentem-se orgulhosos em falar que aquele que jogador mora no seu bairro. Mas as equipes são formadas efêmeros – locais ou de fora – que permanecem muito pouco tempo no clube e não nenhum tipo de vínculo com a cidade; 2) Você nunca sabe se o trabalho realizado numa temporada terá sequência na próxima, pois não há peças de reposição.

Qual o caminho para os clubes do interior reconquistarem o espaço perdido? Existe solução?


Eu acredito que sim e temos defendido isto constantemente: é ter um planejamento de média e longa duração buscando um equilíbrio entre a eficácia financeira e a esportiva. Para isso é preciso investir na base, porém de forma séria profissional e científica. As cidades citadas, todas (Ponta Grossa, Londrina e Maringá), possuem cursos de Educação Física, local em que a estrutura física se aproxima dos CTS de ponta no que se refere aos laboratórios de Fisiologia do Esforço, academias, piscina... Mas não há uma ligação entre estes dois campos, pois um acha que tudo pode ser definido a partir da ciência e o outro acha que o futebol no Brasil é improviso e ganhar dinheiro rápido e fácil, não se importando com a formação do atleta, em todos os sentidos. A solução está pautada em valores como - Organização, profissionalismo, planejamento, transparência, investimento na base e efetiva responsabilização fiscal para os administradores do clube.

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