sexta-feira, 4 de setembro de 2009

95 anos de Caldeirão

As equipes que disputaram o primeiro jogo interestadual no Paraná, na inauguração da Baixada. O Internacional, de alvinegro, e o Flamengo, com a camisa "cobra-coral".

"Vai ter festa na Baixada." A frase que embala a torcida atleticana ganhará um sentindo especial no próximo domingo. Quando Atlético e Flamengo rolarem a bola, às 16h, o Estádio Joaquim Américo, o primeiro construído para a prática do futebol no Paraná, estará completando 95 anos de história.

O jogo que inaugurou as arquibancadas do estádio da Baixada da Água Verde aconteceu no dia 6 de setembro de 1914. Na época, o dono da casa era o Internacional FC, antepassado do Atlético. E por coincidência ou obra do destino, o adversário foi o mesmo Flamengo que enfrenta o Furacão 95 anos depois.

Nesse período, muita história rolou pelo gramado. Mais do que campo do Internacional, a Baixada foi durante anos o principal palco do futebol paranaense. "Todos os times jogavam lá. Principalmente América, Savóia, Paraná Sports e até o Coritiba, antes de inaugurar seu primeiro estádio, em 1917", conta o professor e pesquisador Heriberto Ivan Machado.

Quem ver fotos da época e for à Baixada hoje em dia, pode não acreditar que se trata do mesmo local. Tudo mudou nos arredores do velho campo. A região, outrora um bucólico bosque, hoje é uma das áreas mais movimentadas da cidade. E a antiga estrutura de madeira deu lugar à moderna Arena.

Mas foi em 6 de abril de 1924 que aconteceu a mudança mais significativa. Nesta data, quem entrou em campo como dono da casa foi o Clube Atlético Paranaense. Fundado 13 dias antes, como resultado da fusão de Internacional e América, o novo clube herdou o estádio e transformou sua história.

Caldeirão

Sob administração do Atlético, a Baixada ganhou o nome de Joaquim Américo, em homenagem ao patriarca do Internacional e idealizador do estádio. E, ao longo dos anos, viu mudar completamente o perfil de seus frequentadores.

Até então um local de lazer da elite curitibana, a Baixada foi aos poucos se transformando na casa do povão rubro-negro. O outrora aristocrático bosque se transformou no Caldeirão do Diabo, venerado pelos atleticanos e temido pelos adversários.

Ao mesmo tempo em que o público ia crescendo e se diversificando, outras alterações eram necessárias. Em 1939, foi inaugurada a primeira arquibancada de concreto. "Mas parte da velha estrutura de madeira permaneceu de pé, até meados dos anos 1940", diz Machado.

Em 1967, novos vestiários e alambrado. Em 1980, as primeiras torres de iluminação. Mas em 1986, o Atlético abandonou a velha casa e partiu para a aventura do Pinheirão.

Exílio

Foram oito anos no frio e distante estádio da Federação Paranaense de Futebol. Fechada, a Baixada se tornou local de peregrinação para alguns abnegados atleticanos, que insistiam em arrancar o capim que se espalhava pelos tijolos à vista.

O exílio acabou em 1994, quando o clube decidiu voltar à Baixada, novamente reformada. Ali, o Atlético permaneceu por mais três anos, até 1997, quando voltou para o Pinheirão. Mas desta vez, a ausência tinha tempo determinado e abria espaço para a verdadeira revolução que estava por vir.

Arena

No dia 24 de junho de 1999, a torcida atleticana mal podia acreditar no que estava diante de seus olhos. Ali mesmo, no conhecido arrabalde da Água Verde, estava a Arena da Baixada.

Revolucionária para os padrões do futebol brasileiro, a Arena impressionava pela beleza e modernidade. Mas preservava a característica mais marcante do velho campo e a mais apreciada pelos rubro-negros: a proximidade da arquibancada para o gramado. O velho e temido Caldeirão ressurgia.


Um jogo cheio de História

Curitiba estava em festa no dia 6 de setembro de 1914. A partida entre Internacional e Flamengo foi o maior evento esportivo da história da cidade até então. Mais de 3 mil pessoas foram à Baixada, recorde absoluto para a época.

Dois dias antes, o Internacional já havia convocado a população para uma "imponente recepção aos ‘foot-ballers’ do ‘team’ carioca". Era a primeira vez que o rubro-negro jogava fora do Rio de Janeiro e o primeiro jogo interestadual realizado no Paraná.

A empolgação não era por acaso. Já naquela época, o Flamengo era reconhecido como um dos clubes mais populares do Brasil. A fama do trio defensivo Baena, Píndaro e Nery se espalhava pelas ondas da antiga Rádio Nacional.

Em campo, o Mengo mostrou que a fama não era por acaso. Jogou com a camisa conhecida como "cobra-coral" (com listras brancas finas entre as rubro-negras) e goleou impiedosamente o time da casa por 7 a 1.

O Internacional não era ruim. Pelo contrário. Aquele mesmo time se tornou o primeiro campeão do Paraná, em 1915. Mas o futebol carioca estava em outro nível.

No dia seguinte, o Flamengo voltou à Baixada e massacrou a seleção paranaense, por 9 a 1. No caminho de volta, ainda passou por Paranaguá e fez 15 a 0 no Paranaguá SC. E já no Rio, garantiu o primeiro campeonato carioca de sua história.


INTERNACIONAL 1 x 7 FLAMENGO
6 de setembro de 1914

Internacional - Reffo; Bacalhau e March; Júlio, Torres e Lulu; Lahorque, Ivo Leão, Collares, Portes e Maravalhas

Flamengo - Baena; Píndaro e Nery; Ângelo, Galo e Miguel; Pinho, Arnaldo, Bahiano, Joca e Juarez

Gols: Portes (Inter), Joca (2), Júlio (contra), Arnaldo, Píndaro, Bahiano e Galo (Fla)

Árbitro: Oswaldo Palhares

Local: Baixada da Água Verde

Público estimado: 3.000


Atlético na Baixada
(Atualizado no dia 2/9/2009)

Primeiro jogo: Atlético 4 x 2 Universal (6/4/1924)
Último jogo: Atlético 0 x 0 Botafogo (2/9/2009)

1.193 jogos
742 vitórias
236 empates
217 derrotas
2.680 gols pró
1.393 gols contra

Fonte: Armindo H. Berri / Tribuna do Paraná